“Existe uma lei mais importante que a do governo, esta é a lei da consciência” .
Eu vi uma negra. Uma negra na rua. Com muito dinheiro nas mãos. Tanto que ela não conseguia esconder, ou guardar. Ela estava séria, ela era decidida.
Ela era. Seu sangue foi a segunda coisa que percebi. Era de um vermelho que pingava como vinho,
mas viscoso como óleo. E eu estava vendo o fogo se aproximando.
Ela não era ela, mas não tem muita coisa para ser além disso, talvez preta, talvez mulher, não como se ela tivesse escolha, como se ela quisesse isso para ela.
Eu a vi, e ela estava com dinheiro, estava em sangue. A terceira coisa que percebi não foi olhando, mas em um presumir absurdo: ela não tinha boas roupas. Sujas, rasgadas, velhas, suas roupas mal cabiam no seu corpo.
Como um mito, ela estava ali. Como uma descoberta do óbvio, eu estava lá. Um novo Pero Vaz na terra das índias… Ingênuo e burro este Pero Vaz que se encanta com coisas tão minúsculas! Ambiente? Terras novas? Ouro? Negros da terra? Os negros da nova terra não são dela e nem ela deles. Naquele momento, como o banto chegando de repente, sua seriedade fez sentido. Naquele momento, tribos, sociedades tidas como não desenvolvidas, quilombolas… respiravam o mesmo ar ofegante daquela negra. A mesma ansiedade. O mesmo desespero. Aquelas lágrimas eram todos em uma, numa súplica silenciosa, um socorro abafado que ninguém conseguiria entender. Num sério e arrependido desabafo de sua história, procurou tudo que tinha, pensou em todo dinheiro em suas mãos, e em família, e em amigos. E na voz de todos achou sua dignidade, minguante, mas viva.
Ela caiu no chão. E ninguém a levantou. Ela ainda está lá?
Fotos, um novo e limitado ponto turístico.
Acabou.
Ela? De quem você está falando?