“Bonita a casa”
Mariana ouviu de sua cama um som e acordou. Não era a voz de seu pai e nem de sua mãe, e nem de sua irmã e isso a assustou, mas sua mãe tinha acabado de lhe confiar o posto de mais corajosa da casa, depois de matar uma barata, então Mariana tinha alguma confiança ali.
“Q-quem está aí?” Disse, já com o coração no peito.
“Calma, menina. Sou eu. Lúcio.” E do nada surgiu um brilho da entrada do quarto dela. Ela não entendeu direito o que era aquilo, mas estava cegando seus olhos. Ela piscou fortemente para tirar o brilho. Uma. Duas vezes. Na terceira o brilho diminuiu bastante, sobrando apenas algum tipo de capa ao redor deste menino, que estava na porta do seu quarto.
A princípio, Mariana pensou em gritar para alertar seus pais, mas ela sentiu algo estranho, como se podesse confiar naquele menino. E ele realmente estava brilhando. Fraco o suficiente para que ela pudesse olhá-lo sem se cegar, mas forte demais para que ela pudesse ver qualquer características dele. Ela apenas sabia que ele tinha olhos e boca porque ela conseguia distinguir a diferença do brilho de cada e os movimentos. Ele estava vestido com uma camisa de manga curta e shorts curtos também e descalço. Pelo que ela percebeu, ele era da mesma idade que ela, mas algo estava diferente e ela não entendia o porquê.
“Posso conversar contigo?” Disse Lúcio
“Minha mãe falou para eu não conversar com estranhos. Ainda mais quando eles invadem nossa casa.” Rebateu Mariana, vestindo a coragem e ousadia por cima da curiosidade e interesse.
“Mas eu não invadi sua casa. E como você sabe se eu sequer estou aqui de verdade? Talvez isso seja só um sonho, bem real” disse Lúcio, ao se aproximar mais de Mariana e adentrando ao quarto.
“Isso está confuso. E meus sonhos nunca foram tão reais assim.” Disse Mariana, levantando da cama para vê-lo de mais perto.
“Talvez você devesse deixar o sonho continuar”, e o Lúcio fica diante dela.
Mariana continua sem conseguir distinguir o que é Lúcio, mas uma coisa ela percebe: ele deve ser bastante pobre e com fome porque ela consegue enxergar as costelas dele através da blusa. De frente para ele, ela continua.
“Eu que mando nos meus sonhos, e portanto você não poderia existir neles. Eu nunca criaria algo como você, sem ofensas.”
“Ah, minha amiga. E quando as alucinações de uma mente perturbada começam? Nunca sabemos. Não que você seja perturbada, me ouça. Eu quero dizer que…”
“Agora é o limite. Você veio no meu quarto para me chamar de doida?” Ênfase no “meu” para que ele entenda que precisa tomar cuidado com as palavras, afinal se aquele é um sonho, então ela tinha o controle dele também.
“Eu falei ‘mente perturbada’. A loucura é o estágio final caso isso fosse um problema.”
“Hmpf” e Mariana revira os olhos.
“Abra os olhos para as possibilidades, amiga. Qual seu nome?” Diz Lúcio, sentando no chão.
“Mariana” e ela senta de volta na cama.
“Nariz de banana?” E ele faz algum tipo de careta que Mariana só percebeu que era uma careta porque ele colocou a língua, também brilhante, para fora.
“Lúcio, cara de estrupício”
“Mariana, a descansar
Pensas muito de fato
O Lúcio está no ato
Apenas querendo
Conversar” Recita Lúcio, movendo as mãos como se tivesse atuando.
“Agora é poeta?” Debocha Mariana, com um risonho de superioridade.
“Se esse é o teu sonho, então eu sou o que você quiser.”
“Então seja um porco! Faz oinc oinc” disse Mariana, enquanto ela mesma imitava um porco.
“Talvez outro dia. A verdade é que você me chamou aqui.” Disse Lúcio casualmente, enquanto deita no chão.
“Como assim eu te chamei? Eu não lembro de ter chamado nenhum fantasma.”
“Mas você fez a pergunta, e com a pergunta vem uma consequência. Você é muito nova para fazer essas perguntas e, por isso, eu vou tentar te dar as respostas.” Diz Lúcio, novamente bem tranquilo, mas agora levemente desafiador, o que intimida Mariana. Ela, de alguma forma, sabe o que ele está falando, o que assusta ela em alguns níveis. Ela nunca falou sobre isso com ninguém, nem para Nicole, sua melhor amiga. Ela não queria conversar sobre aquilo. Na verdade, ela nem sabia se aquilo era real.
“Eu tenho tempo para a gente conversar. Só quando você tiver pronta.” Disse Lúcio, e a partir dali ele não falou mais.
Mariana o observou e ficou quieta observando ele. Ele não se mexia. Parece até que já tinha caído no sono. Ela esperou algum tempo observando ele e depois deitou-se na cama.
“Eu me sinto cansada e triste. O tempo todo. Muita culpa vem a mim sem ter minha marca e eu já não sei se eu posso fazer alguma coisa certa. Eu erro tudo o que eu faço. A única coisa que eu sei fazer bem é fingir que tudo está bem. Eu não aguento mais. A cada dia que passa o futuro parece tão real e isso me assusta. Eu não sei o que vai ser de mim quando chegar e eu nunca vou estar preparada. Me pergunto o tempo todo se eu vou ser alguém bom em algo e que vou deslanchar na vida, como minha irmã, mas eu sei que eu não consigo lidar com nenhuma pressão. Tudo me sufoca e o tempo parece não passar. Eu queria muito sair daqui, fugir para muito longe e viver feliz em um lugar em que o tempo não passe. Eu só quero…”
Sem pensar muito no que acabou de dizer, ela chorou. E chorou por um bom tempo. Quando abriu os olhos, Lúcio não estava mais lá. E logo depois ela dormiu de verdade.
Será que amanhã ele vai estar lá?
