Queria começar esse texto dizendo que este é o começo de uma história que eu quero escrever e adaptar melhor. Tem uns termos que eu vou desenvolver melhor, mas até lá, aproveitem esses nomes estranhos e palavras estranhas. Eu tentei.

Todos os dias parecem os mesmos. Quando as lendas se tornarão algo real e emocionante?
Acordo com o brilho dos céus nos olhos e os sons das máquinas ao redor e já sei que devo correr para comer, afinal a comida já deve tá posta. Levanto-me da cama descabelado, mas nem ligo. Eu estou mais preocupado com o que eu vou comer agora. O chão está frio, então eu coloco meus calçados de couro e pego o casaco da cadeira para cobrir o resto do meu corpo.
Meu quarto está um pouco bagunçado. Muitas roupas jogadas pelo chão, dois livros se encontram abertos um em cima do outro com uma fruta meio comida em cima dos dois e eu espero muito que não tenha manchado as páginas. A janela é bloqueada pela minha cortina levemente opaca, deixando apenas uma fresta de luz tocar minha cama. Pelas paredes meus desenhos de antigas lendas e heróis que eu mesmo pintei e até que ficaram bonitos: Hayor, Gloçam, Fytum, Jane. Todos sérios em suas roupas táticas olhando para frente, vislumbrando um novo amanhecer que eu mesmo pude conhecer. Bem, tirando esse altar pessoal, a bagunça estava feita, mas eu posso limpar quando voltar. Saio do meu quarto e bato a porta.
De frente para mim tem a escada descendo para a sala de arquivos. No meu andar tem mais um quarto, mas a porta continua fechada. Dou de ombros, prefiro deixar ela quieta. Desço as escadas pensando no que cozinhar caso eles já tenham comido tudo. Tem algumas frutas, ovos, folhas, acho que carne processada. Daria uma ótima salada. Meu quarto fica no alto da escada e enquanto desço eu percebo que nenhuma das outras portas ainda está aberta, o que significa que os meninos ainda não acordaram. Eu grito em seguida “QUE PERNIL DELICIOSO!” e desço a escada correndo. Chego primeiro na sala de arquivos, imponente e lustrosa com suas enormes estantes encravadas nas paredes, mas já ouço as pisadas pesadas atrás de mim e preciso adiantar. Ainda correndo, eu atravesso nossa sala de arquivos e vou direto para a cozinha.
Mais um dia tranquilo, pois a vida é tranquila.
Finalmente na cozinha: um cômodo não muito maior do que os outros, com uma mesa pequena retangular corta o cômodo no meio de forma transversal às maiores paredes ocupando quase todo o espaço, de forma em que ao entrar pelo arco aberto de entrada, é a primeira coisa em que você consegue enxergar. Na parede oposta, há muitas pequenos armários presos em cima e abaixo há uma grande pia de metal para lavar as sujeiras que existem em uma cozinha. Do lado direito há uma porta de metal com vidros embaçados que abre para o lado de fora, junto com um cabide e muitos calçados e do lado esquerdo existe mais um grande armário de madeira para guardar os utensílios, com entalhes decorando as portas e suas pernas.
Sento na cadeira mais perto da geleia de frutas e dos pães, de costas para o corredor de onde vim, e vejo que Oortrei caprichou dessa vez: Um litro de leite e muitos sucos dispersos na grande mesa de madeira. Pães quentinhos em cima da mesa em uma pilha, acabados de sair do forno, acompanhados com geleias variadas. Não consegui ver se tinha manteiga, acho que terei de encomendar depois. Uma cesta com muitas frutas no meio da mesa, até porque eles sabem que todos vão pegar na cesta. Duas frigideiras de ovo com ervas e alguns molhos. Vejo também pedidos para atender as necessidades de cada um: as pílulas de saúde para Krais, o energético natural de Jois, até mesmo os componentes da nova dieta de Tamos.
– Espertinho. Já vai comer todos os pães da mesa. Não vou deixar você sozinho.
O primeiro irmão chega. Urdim. Ele é alto e magro. Cabelos brancos surgem em meio ao seu corpo inteiramente peludo. Está com seu pijama favorito: uma camisa branca surrada e uma calça tão usada que o tecido parece nunca ter visto a limpeza, mesmo ele as limpando todo dia. Ele se dirige para perto de uma das pontas da mesa enquanto eu o encaro. Seu olhar era de sono, mas brincalhão e eu respondo sem demora:
– Vocês demoram mais do que Hayor! Eu quero comer!
– Se a mesa está posta, então está na hora de comer –
Outra voz surge atrás de mim.
Krais aparece primeiro com sua mão atrás de mim, pegando o pão mais próximo, como se eu fosse um ser bem pequeno e um gigante fosse devorar a minha casa. Krais o faria, se quisesse.
Ele é enorme. Braços, pernas, cintura, mãos… Tudo grande. Estar do lado de Krais dentro de um transporte é saber que será esmagado, ou por brincadeira ou sem querer. Krais é extremamente extrovertido, o que me deixa um pouco acanhado. Agora que ele se senta, do meu lado, eu vejo que ele está com a mesma roupa de ontem: Um macacão com uma camisa de manga longa por cima. Mas por incrível que pareça o cheiro dele é de frescor do campo e ervas.
– Comporte-se e trate de ingerir suas pílulas. É para seu bem – Diz Urdim em um tom um pouco sério – Ainda é muito cedo para eu pensar em falar sobre o quão é importante estarmos juntos na mesa comendo. Somos…
Uma equipe. Irmãos que estão nessa juntos para viver e nos cuidar atenciosamente. O amor vive em nós e flui de nós para a terra e… – Eu e Krais falamos em uníssono de tanto que já ouvimos esse discurso antes, mas no final adicionamos uma parte extra: “Bla bla bla”.
Todos rimos e Krais vai em direção a suas pílulas para tomá-las. Ele as ingere de vez e as engole sem líquidos para ajudar.
– Já estamos usando entorpecentes? Mas ainda é cedo! E… Cadê o pernil?
Deu para ouvir Jois chegar só pela respiração forte. O quarto dela é ao lado do meu e provavelmente ela acabou de acordar e veio correndo.
Ela tem minha altura e está vestida num pequeno sobretudo azul, que é seu desde pequena e nunca se desfez. As olheiras, mãos calejadas e o corpo levemente musculoso e grande denunciam sua paixão pessoal: esportes. Todos os dias ela treina mais e mais com iguais até tarde, pois para ela é um momento de paz e tranquilidade. Eu não entendo muito bem, mas é o caminho dela.
– Eu menti. Queria tirar vocês logo da cama. Vocês ouvem pernil e ficam iguais a loucos!
– Como você OUSA mentir sobre um assunto TÃO SÉRIO como pernil? Estou indignada.
– Pelo menos ele tá sendo sincero agora – Fala Urdim
– Defendendo ele por quê? – Retruca Jois – Ele merece a guilhotina por me fazer acordar tão cedo!
– Vocês estão bem animados para um dia de folga. – Uma nova voz surge de trás de mim.
Quiostono chegou e o ar fica mais denso, não literalmente. Jois foi pegar sua xícara de energético natural enquanto eu e Krais nos encaramos discretamente. Jois se dirigia para sentar ao meu lado, mas Quiostono já estava indo naquele direção. Ele puxa a cadeira arrastando-a no chão dramaticamente e se senta, obrigando Jois a se sentar do outro lado da mesa.
“Desculpas” ela diz em minha direção movendo os lábios. Eu demonstro com o rosto que eu agradeço pela preocupação. Não me importo muito com Quiostono, mas os outros sim.
Primeiramente o que posso falar de Quiostono é: ele é um Icka, ou seja, vive através de metal e partes que foram feitas em laboratório. O que significa que seu braço esquerdo, juntamente com seu ombro, costelas, pulmão e partes do coração são feitos através de material sintético e de metal. Ele sofreu um acidente quando era muito pequeno e a única forma de viver foi com esses aprimoramentos. Atualmente existe uma grande discussão sobre o cibernético no mundo, porque existem pessoas que acreditam nas Poderosas Explosões do Magnífico Huçoriamo e, evidentemente, acreditam no Destino natural de todas as coisas, ênfases no “natural”, porque significa que as intervenções científicas muito íntimas na vida pessoal podem distorcer a trajetória do destino.
Bom, Quiostono nem pensa muito nisso porque ele está ocupado sendo sarcástico. Ele é bem magro, delgado como o caule de uma planta que acabou de nascer. Ele é mais alto que eu por poucos dedos, mas seus dedos pequenos, braços e pernas curtas fazem-no parecer menor. Ah, e seus olhos possuem cores diferentes: um é castanho e o outro lilás.
O silêncio continuou dentro da sala, até Quiostono dizer:
– Por que ainda não estamos comendo?
– Estamos esperando o último – Diz Krais – Assim como manda as ordens.
– Ordens… Podemos fazer da nossa forma, caso queiramos. Isso são só posturas indicadas por outros. Talvez Tamos nem apareça hoje – rebate Quiostono, com um sorriso suficientemente simpático uma manhã pode deixar – Vamos só comer logo, sim?
– Mas devemos respeitar as regras, Quiostono – Repete Krais, olhando para Urdim e com a voz mais baixa.
– Bom, faça o que quiser. Eu vou pegar meus ovos mexidos e molho.
Assim que Quiostono toca nos talheres para pegar o ovo, Urdim solta um grunhido. Quiostono para, olha para ele, mas Urdim continua quieto. Quiostono volta a tocar nos talheres e Urdim volta a grunhir, coçando a garganta. Dessa vez Quiostono não para e vai em direção ao ovo. Eu, Krais e Jois continuamos nos olhando calados. Urdim está ocupado encarando viciosamente Quiostono, que a este ponto já está com o ovo no prato. Urdim continua falhando miseravelmente em chamar a atenção do Quiostono sem usar palavras, enquanto que este está procurando os molhos na mesa. Eu, para esquentar a situação e por puro humor, pego o molho para Quiostono e ele me agradece com um olhar, enquanto que Urdim me encara ferozmente.
Quiostono dá a primeira garfada e nós três nos esforçamos muito para não rir ao olhar para Urdim, que está tremendo de raiva. Antes de chegar em sua boca, Quiostono para e finge se questionar.
– Hm, acho que podemos esperar Tamos mesmo. Lembro de tê-la ouvido se arrumar quando estava descendo as escadas.Sim, vou esperar.- Diz finalmente, encostando o garfo no prato e olhando para o rosto de cada um de nós, para finalmente olhar para Urdim com um sorriso debochado.
– E o ciclo continua! – diz Urdim, mudando de temperamento rapidamente e rindo profundamente – Assim como não sabemos nosso suspiro final, certo?
Quiostono repentinamente pega no garfo e come rapidamente direto depois da ultima frase de Urdim. E o caos está feito. Urdim levanta e está preste a gritar com Quiostono, que está calmamente preparando a próxima garfada quando eu ouço passos bem leves atrás de mim.
– Parem vocês dois! – Falo alto o suficiente para que Urdim entenda que não é o momento. Ele fecha o rosto e se recolhe na cadeira.- Tamos chegou.
E eu levanto da cadeira e me viro para buscá-la. Sei que ela está na sala de Arquivos, mas ela se escondeu. Vou para a poltrona mais próxima da sala e a encontro atrás dela, com sua camisa dos Campinatos, um time que ela gosta, grande o suficiente para usar como vestido.
– Vem logo, estamos te esperando. – Digo a ela
– Quase todos nós estamos esperando, não é? – diz por cima de mim Urdim
– O importante é que ela tá aqui – digo sorrindo de volta para ela e ela cede, pegando minha mão e se dirigindo à cozinha.
Tamos é menor que eu. Ela tem um brilho no olhar diferenciado, capaz de enxergar detalhes com muita perspicácia, além de ser bastante exigente com as coisas com que gosta de fazer: desenhar, escrever. Ela é uma artista completa. Pelo que posso ver, ela estava tentando desenhar algo, pois as pontas de seus dedos estavam um pouco sujas.
Como ela é a menor de nós, dividimo-nos para cuidar dela, e tem dado certo. Primeiro dia ela vai com Urdim à cidade para ajudá-lo com o trabalho de organização de arquivos e solução do que chamam de “Casos obtusos”, ou seja, seres que querem destruir o sistema em que fazemos parte. Urdim trabalha quase todos os dias e às vezes traz o trabalho para casa, pois os casos se somam e crescem todos os dias, mas também porque ele não cuida apenas de nossa área, mas das áreas próximas também.
No segundo dia ela acompanha Krais nas fazendas. Krais é responsável pelo semeio e colheita das fazendas de grãos e Tamos ama as máquinas utilizadas nas fazendas. Além disso, Krais também é um dos responsáveis principais pela comunicação e reorganização da plantação para a satisfação dos consumidores e rotatividade da Terra, o que não é muita coisa já que todo pedaço de terra que se planta de forma ampla tem um desse, mas rede a ele reuniões chatas e muitas fofocas que ele me conta quando sentamos juntos e sozinhos.
No terceiro dia Tamos acompanha Quiostono. Ele trabalha como pesquisador no Centro de Aperfeiçoamento e Análise do Absurdo (CAAA). Basicamente analizando momentos e falhas reais em teorias diversas sobre a realidade, procurando brechas no nosso modo de vida e na vida em si para que possamos entender tudo ao nosso redor. Não sei explicar direito, mas é bem interessante. Vejo ele falando às vezes e me sinto muito convencido sobre seus estudos. Queria vê-lo trabalhar, mas ele disse que é muito perigoso e que só consegue levar Tamos porque é necessário. Tamos sempre volta de lá com um doce diferente na boca e uma cara de boba, mas nunca conta para ninguém o que viu.
No quarto dia ela viaja para longe com Jois, que trabalha em um Centro de Reabilitação para Viciados e Instáveis em um conjunto habitacional bem distante de nossa casa. Elas passam o dia inteiro fora e só voltam de noite. No caso de Jois, ela vai lá dia sim e dia não, a não ser quando surgem emergências. Lá, Jois os ensina melhor sobre o próprio corpo e tenta trabalhar novos interesses aos matriculados, geralmente adolescentes e idosos. Temos a ajuda com oficinas de desenho e as duas fazem um trabalho maravilhoso juntas, ao menos é o que parece.
No quinto dia Tamos vem comigo para a Biblioteca Central cuidar dos arquivos da região. Como atualmente todos os arquivos já estão digitalizados e raramente algo físico é utilizado, a biblioteca serve mais como um museu de tempos antigos. Objetos como algumas armas antigas, primeiros artigos de “luxo” que atualmente nem faz sentido pensar em luxuoso, computadores antigos para sites de busca antigos, e enfim. Literalmente eu me sinto congelado no tempo lá dentro e é ao mesmo tempo assustador e maravilhosa a quantidade de informações que eu aprendo diariamente. Quando Tamos vem comigo eu já separo alguns arquivos um dia antes para que nós possamos folheá-los quando ela vir. Lemos esses arquivos como se fossem histórias fictícias, mas aconteceram de verdade e às vezes procuramos juntos por evidências de tais fatos, ou articulações entre os fatos. Ela realmente tem olhos de águia.
O sexto dia em diante ela vai ao Centro de Ensino e Cultura do povoado. Ela passa dez dias seguidos indo para lá, para “criar o sentimento de pertencimento à nossa cultura”, como se viver na nossa família já não fosse demais.
Bem, devaneei um pouco enquanto andava e quase me bati na mesa enquanto segurava a mão dela. Soltei-a e fui me sentar, e ela seguiu para a cadeira dela, do outro lado da mesa. Agora estamos todos na mesa e Quiostono pede desculpas para Tamos movendo os lábios, que sorri para ele e responde com um dedo levantado: o sinal para que ele desse doces para ela depois. Ele sorri e responde com sinais que eu não conheço, mas ela entendi e solta um risinho baixo.
– Bom, já que estamos todos aqui, vamos proferir as palavras sagradas. Sim? – Pergunta Urdim. Todos nós nos damos as mãos, até mesmo Quiostono, apesar de mal grado. Assim que todos fechamos os olhos, Urdim começa, e nós cantamos seguindo ele:
“A noite começa por ti
A vida termina em ti
Ó Impotente Huçoriamo
Calor Que Tudo Toca
Que Teus Olhos Emanam Energia
Que Sua Voz Seja Ouvida
Que Nós Possamos Viver
Nessa Vida Calma de Paz
Para Nunca mais Faltar comida
Para Nunca Mais Faltar Morada
Para Nunca Mais Faltar Saúde
Para Nunca Mais Voltar ao Passado
Assim, Agradecemos Por Ser Real
E Realmente Sentiremos Sua Potência”.
E a partir daí é suposto para que peçamos algo ao Huçoriamo, mas eu cansei no meio do rito. Abro meus olhos e encontro Quiostono com a cara de entediado olhando para frente. Ele me vê e esboça um sorriso.
“Feche os olhos”, ele diz, sem sair som.
“Não, cansei”, devolvo a ele.
“Você é do mal”, ele diz.
“Não conte para ninguém”, eu falo.
Antes que Quiostono pudesse responder, todos abrem os olhos.