Eu sou o casulo 💕

Eu fui destinado para ser um infeliz. As marcas da saudade de algum tempo longiquo de utilidade agora são só cicatrizes que doem continuamente. Minha cabeça não aguenta mais. Eu sou só um casulo esperando para que a doce e linda borboleta possa quebrar e destruir por completo algo que não lhe serve mais. O que estou fazendo comigo mesmo? Minhas mãos calejadas de tanto nada, minha cabeça confusa de tanto barulho e eu não consigo mais me ouvir. Busco um sonho irreal e na verdade eu mesmo já me perdi e nem sei quando comecei a me perder. A história de Ícaro é minha algoz e essa é a única da qual eu posso ser personagem principal.

Deitado, jaz eu, imóvel pela monotonia e inutilidade que me cerca. Futilidade também, seja pelos sentimentos ou pelas pessoas. Não que eu ache meus sentimentos fúteis, pelo in contrário, acho que ninguém os merece.

Estou trancado sozinho, preso e ignorado. Realmente me sinto como um objeto estático numa casa de ricos, que foi comprado por ser majestoso, mas que não tem valor nenhum. A pena da minha asa constantemente me lembra do corvo, que paira no teto de minha casa desde que era pequeno. Viu-me crescer e esteve comigo em muitos dos meus momentos. Ele me conhece de perto e eu não o renego. Apesar de ter muito medo dele, eu não fujo. Eu o escondo e o mantenho comigo, na verdade já não sei se sou eu que estou preso a ele, mas estamos juntos querendo ou não.

Agora eu evito me xingar ou me maltratar porque eu mereço melhor, mas não sinto que eu mereça. Eu me sinto só, me sinto inquieto, me sinto triste e cansado. Queria que alguém aparecesse e me tirasse desse buraco que eu me enfiei. Queria acordar um dia e todos meus pensamentos maus sobre mim tivessem desaparecido. Queria muito não me destruir, mas eu não sei mais quem eu sou ou o que eu quero. Eu não sei nem o que sonhar. Eu não tenho perspectiva. Sinto as asas dele sempre que me lembro que eu gastei minha existência de forma ridícula e infantil. Ouço-o quando penso sobre o quão atrasado eu estou em questão aos meus amigos, sobre o quão afundado eu estou.

Eu sou um problema, uma interferência, um incômodo, uma agonia. Eu realmente não vejo porque continuar. Eu não tenho um futuro. Eu não tenho amor, não sei como demonstrar isso, não sirvo pra confiar nem ser confiado, não sirvo pra ser amigo. Sou completamente dependente e só vivo por conta de que minha existência interfere na vida dos outros inevitavelmente. Já faz uns anos que eu tô correndo de todo esse pensamento, mudando minha perspectiva, tentando colocar outras coisas em jogo, me colocando em coisas novas, mas toda vez que eu faço isso, eu quebro. Algo dá errado. Eu destruo alguma chance. Eu não sirvo pra ter chances.

Como o Ícaro da História, eu sirvo como exemplo e destino falho, de vida interrompida devido aos erros do passado. Assim como Ícaro devia ter ouvido o pai, eu devia ter feito algo, mudado minha vida, antes que eu caísse nesse buraco.

A borboleta é mais bonita que o casulo.

O corvo venceu hoje.

Esse é Apolo, meu cachorro. Minha psicóloga não entendeu esse texto direito. Acho que ela não assimilou o fato de eu ser o casulo e a borboleta ser outra coisa.

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