– Entre já! Cale a boca e se esconda. Eles vão chegar a qualquer momento.
Tadeo nunca teve um momento de paz na sua vida. Seu pai mandava ele se esconder enquanto a Guarda Real chegava novamente. Cinco homens em seus cavalos, todos em armadura vestindo os símbolos da coroa. Desde que Tadeo se entende por gente esses homens vão até o vilarejo oferecer “a proteção da coroa” para nós em troca de tudo que temos: dinheiro, comida, móveis, amuletos ou até nossa própria humilhação para a satisfação deles.
Era insuportável a presença deles e até uma única palavra proferida por eles já causava em Tadeo profundo ódio.
Aquela vila, diziam os anciãos, outrora acolheu grandes heróis elfos em momentos de necessidade deles. Os vilões oferecemos abrigo, comida, remédios e eles, como troca, disseram que os espíritos trariam paz a essa terra e um deles, na lenda era um grande mago, conjurou um grande selo num lugar dentro da floresta. A partir desse dia os moradores seriam eternamente gratos por eles e sempre rezaríamos e traríamos coisas para Ele. A melhor parte da colheita sempre foi reservada a Ele, todos nossos ganhos, nossas perdas e despedidas. Ele sabia de tudo porque sempre estiveram com Ele. Eram abençoados por isso, pela floresta, mesmo sem saber direito o que aquilo era.
Assim o vilarejo permaneceu em paz, com comida suficiente e os viajantes sempre eram recebidos de braços abertos, independente das maldades que poderiam fazer e, no final, nunca machucavam os moradores. No entanto, quando o avô de Tadeo era pequeno, aconteceu uma grande batalha perto daquela cidade. Ela permaneceu intacta e a floresta sofreu pequenas avarias, no entanto a região em volta deles foi bastante castigada. Prevendo ladrões e charlatões, a coroa gentilmente ofereceu sua proteção para que aquela pequena vila pudesse passar por aqueles momentos sem serem afetados negativamente por uma batalha que nem tiveram participação, diferente das outras vilas da região.
O discurso era bonito, mas perigoso. O preço era muito alto e os anciãos da época percebiam que aquilo era praticamente dar toda a vila para aqurles nobres fazerem o que quiserem com eles. No entanto, as lideranças pensavam diferente. Temendo que os poderes do Espirito fosse algo muito inseguro para se planejar sobre o futuro e almejando o crescimento da vila com o auxílio da coroa, os líderes votaram em segredo e assinaram o acordo.
Claro, os anciãos ficaram muito irritados, mas não puderam fazer nada ao verem as tropas se mudando para um lugar próximo à vila. Os primeiros contatos foram amistosos, no entanto a cada troca de Companhia de Cavaleiros que cuidavam da vila, as coisas ficavam piores. Primeiro eles começaram conseguindo pagar ao auxílio, mas logo eles não tinham mais como conciliar agradar o Espirito da Floresta e os Cavaleiros ao mesmo tempo. A liderança da vila, agora ouvindo os anciãos, decidiram parar com aquele contrato, no entanto eles não tinham mais o poder para fazer isso. Os Cavaleiros estavam lá e eles precisavam de comida e suprimentos, coisas que a nobreza achava que aquela conhecida vila de pessoas gentis dava. E começou a exploração a partir deste dia.
Pessoas que eram consideradas como artesãos consertavam armaduras e armas para a cavalaria. Os outros buscavam comida, amuletos, caçavam… Tudo para que os Cavaleiros pudessem se instalar. Se alguém desobedecesse, era levado de lá e nunca mais voltava. Se fizesse qualquer ato que eles declarassem rebeldia, eles humilhavam sem pena. Os Cavaleiros já não ligavam mais para crimes que qualquer um cometia ou para qualquer senso de justiça pois, contanto que tivessem o que queriam na hora que queriam, eles não reclamavam.
Com o passar do tempo a situação foi piorando. Eles não tinham mais tempo para fazerem coisas pessoais e o simples ato de ir para a floresta rezar foi deixando de ser comum e passando a ser cada vez mais raro. No entanto esse não era o caso de Tadeo.
A família de Tadeo seguia uma longa linhagem de Anciãos daquela vila, sempre repassando todas as informações, salvaguardando artigos considerados preciosos e preservando tradições que não deviam ser quebradas. Todavia a geração do avô de Tadeo quebrou com todas as tradições por quererem modernidade para a cidade e aceitarem aqueles inquisidores lá como realmente heróis. O pai de Tadeo já via aquilo como uma grande exploração, no entanto se sentia muito impotente e cedia a qualquer pedido dos Cavaleiros. Por outro lado, a mãe de Tadeo via toda aquela descrença como um sacrilégio à memória daquela Vila em tempos de paz e fazia questão de ensinar a Tadeo tudo que sabia sobre os antigos costumes, dos segredos e histórias sobre aquela vila ou sobre magia e encantamentos. Claro, eles não tinham nada que os guiasse nessa escuridão, apenas o mais profundo que suas imaginações poderiam criar.
Apesar de explorados, a mãe de Tadeo ensinou a ele como rezar na Marca do Espírito da Floresta e sempre levava Tadeo para dar o mínimo da refeição do dia para Ele. Mas não era o suficiente.
Aqueles ultimos anos… Eles estavam em um dos piores momentos em relação a alimentação que aquela Vila já passou em sua história: os animais haviam desaparecido, as plantas ou não cresciam ou cresciam pestilentas, os acordos com as outras vilas enfraqueceram e ladrões começaram a espreitar. Tadeo cresceu nesse meio e sua única motivação para seus dias era tentar não morrer de inanição e trabalhar para aqueles desgraçados. Boatos que chegaram a eles diziam que um dos soldados havia visto Tadeo entrando na floresta e, ao acompanhar, viu o santuário e todo aquele tesouro em volta. Antes que pudessem destruir o santuário, iriam atrás daquela família por manderem o santuário vivo. E ali eles estavam.
Era final da tarde e cinco homens, todos com armadura de couro remendadas da melhor forma possível apareciam de pé em frente à humilde casa de Tadeo. Nenhum deles parecia ser realmente importante, mas serviam para dar o recado. O mais gordo deu um passo para frente, assumindo o papel do líder deles. Tadeo o reconhecia como Guigo-Cheira-a-Bosta, apesar de que o nome real dele era Guilhermo Lebourneu.
– Com toda a… Licença – disse Guigo afetadamente, ao passar pelos vegetais podres que estavam na banca do pai de Tadeo – Eu acredito que saibam porque estamos aqui.
– V-Vieram pelos vegetais, presumo – Diz Hernando, o pai de Tadeo, entre pigarreios
– Por mais que eu presuma realmente que isso é o melhor que vocês podem oferecer – diz, enquanto pega um rabanete podre do balcão – Eu não iria comer isso nem que vocês pudessem me obrigar.
E todos os cavaleiros riem junto ao líder.
– Então pelo quê está aqui?
– Ah, meu caro. Então não ouviu os rumores? O fato… É que Timora sorriu para nossos corações. E estamos apenas agradecendo a ela pela oportunidade.
– Não fale dos Deuses como se eles servissem a você – Diz Manuella, a mãe de Tadeo
– Mas eles não me servem mesmo! – Diz Guigo, agora com uma sobrancelha arqueada – Os serventes são vocês, meus caros. Meus amigáveis… Ajudantes – Ao dizer essa palavra ele dá uma pequena risada, como se estivesse deliciando-se com o poder de chamá-los de escravos.
– Com licença – Uma recruta se aproxima um pouco de Guigo e diz – as ordens são expressivamente levar os três familiares para o Duque. No entanto, só vejo dois familiares presentes.
Neste momento, o coração de Tadeo apertou. Ele correu para o porão escondido em que seus pais guardavam os segredos de seu povo e se escondeu lá, se fechando por dentro e percebeu que de lá ainda dava para ouvir o lado de fora. Mas seus pais ainda achavam que ele estava logo atrás da porta e reagiram nervosos com essa afirmativa da recruta.
– Como assim nos levar?! – Manuella começa a levantar a voz – Demos tudo que pediram. Nunca questionamos até o mais absurdo dos favores. Meu marido já dançou nu no meio da praça por horas para fazer vocês rirem. E agora isso? Expliquem-se. Expliquem o motivo. Por favor. – O modo em que ela falou não demonstrou qualquer sinonimo de hilário, mas pelo contrário. Foi entre o leve desespero e o cansaço de uma mulher que não aguentava mais aquela vida. Aquilo não era uma ordem expressiva, era mais um pedido, como quando algum infeliz tenta falar sobre seus sonhos antes de ser enforcado.
– Moça, desculpe-me por trazer essas notícias tão infelizes – Começa a falar a Recruta -, mas não temos escolh…
– Com licença, minha querida. Eu ainda não terminei – E Guigo fala isso alto o bastante para calar a recruta e para chamar mais ainda a atenção das pessoas na Vila. E se volta para a mãe de Tadeo – Já que se preocupa tanto com o nosso bem-estar e guarda essa memória tão carinhosamente, então que tal vocês dois dançarem juntos para nos entreter? Que belíssimo show, não seria?
Pela primeira vez, nenhum dos dois pais tiveram coragem para falar algo. Depois de um intervalo em silêncio, Guigo continuou.
– Eu entendo o que estão pensando agora. “Que homem horrível e desprezível! Ele nos trata como bonecas! Nós devemos ter mais dignidade do que isso!”. Bom, vou adiantando o pensamento de mais tarde: Vocês não têm dignidade. Você mal conhecem qualquer coisa sobre isso e mesmo gastar palavras para tentar explicar seria um desperdício de tempo. Porque sim, vocês são nossas bonecas. E enquanto nós – E ele fala mais alto, para poder amedrontar quem estivesse por perto assistindo a cena – estivermos aqui, vocês se subjugarão a nós! Porcos imundos! Comendo coisas podres porque não conseguem nada melhor! Eu tenho uma vida boa porque eu sou um soldado e nós sacrificamos nossas vidas pela segurança de todos vocês! Tudo que pedimos é submissão e obediência, além de uns poucos favores e olha como nos tratam? Com mentiras! – E, gritando essa última palavra, ele estapeia o pai de Tadeo.
– Sabemos que escondem um santuário. E sabemos que ele tem grandes riquezas inimagináveis de centenas de anos. – diz outro soldado alheio, se sentindo meio constrangido com a demonstração de força do Guigo – Não é nada pessoal a vocês. Só queremos saber onde está este Santuário.
– É, essa porra desse Santuário! Eu ouvi o seu menino comentando com os amiguinhos dele sobre isso! – Diz a voz fina do soldado mais magro da equipe. Tadeo reconheceu logo Zé-cabeção, ou Joshua Allegatieri. – Fui à floresta seguindo ele e não consegui encontrar, mas o menino estava carregado de jóias. Eu vi com meus olhos!
– Talvez precise de olhos novos… – Diz a recruta, com um sorriso para os pais de Tadeo, sem resposta de volta.
– Acho que você está atrapalhando, Miriam – Disse Guigo, intimando ela a ficar quieta, mas ela não fica.
– Eu só acho um absurdo isso. Estamos a décadas nessa vilas e nunca ouvimos falar sobre um Santuário? Nunca chegamos nele? E como una criança vai ter tantas jóias se os pais dela passam fome todos e comem vegetais podres? Você não está sendo lógico, sir Lebourneu. – Ela fala tudo isso em tom de provocação, o que faz Guigo só se irritar mais.
– Tirem-na daqui. Eu e Joshua vasculharemos a casa. Se nada existir de criminoso, só cumpriremos nosso trato e os levaremos para que o Duque cheque esse rumor ele mesmo.
E, mesmo com resmungos de desaprovação sobre o quenele estava fazendo, ela por conta própria sai de lá, junta com os dois outros soldados. As pessoas se aglomeram ainda mais, mas não dizem nada. Apenas pequenos murmúrios são ouvidos aqui e ali, mas o silêncio impera.
– Onde estávamos? Ah, sim. – E Guigo invade com tudo a casa de Tadeo.
Ao arrombar a porta, ele percebe logo que não era necessário. A casa era simples demais. Era uma casa que possuía uma grande sala com tudo e os cômodos eram divididos através dos tapetes, dos quadros e de umas paredes de madeira bem fina. Ele olhou ao redor e vasculhou um pouco. Logo percebeu que não havia nenhum resquício de qualquer tipo de pedra preciosa nem nada que ele estivesse procurando. “Aqueles dois devem ter escondido e agora estão me fazendo de besta” e, com esse pensamento, ele começa a destruir a casa inteira. Com as machadinhas bem polidas que guarda em sua armadura de couro, ele começa a quebrar tudo: paredes, móveis, lembranças da Família, potes com unguentos, heranças de família como um arco antigo sem corda que pousava na parede e qualquer outra coisa que para ele parecia “suspeito”. Manuelle tentou correr para salvar suas coisas, mas Hernando e Joshua seguraram ela. Tadeo só conseguia ouvir o choro desesperado de sua mãe enquanto aquele monstro destruía tudo.
Quando finalmente Guigo se acalmou, a casa apenas prendia o telhado no teto. Tirando isso, quase tudo estava destruído ou ao menos em péssimas condições. Os pais de Tadeo estavam na porta abraçados sem dizer uma palavra.
– É, realmente Miriam estava certa. Vocês só são um bando de miseráveis mesmo.
– Espere um momento – Disse Joshua – Onde está o garoto? Até agora ele não apareceu.
– Ele tinha ido brincar quando vocês apareceram. Agora eu mesma não tenho certeza onde ele pode estar. Devido a desgraça que causaram à minha casa eu nem sei se é justo chamá-lo aqui novamente! – Manuella novamente se impõe contra aquele brutamontes, agora imbuída de uma coragem que ela não sabia de onde vinha.
– Quem você pensa que é para falar assim comigo? Sabe quem eu sou? Sabe de onde minha família é? – Guigo volta para ela, agora com um brilho sombrio no olhar.
– Eu sei o suficiente sobre você. E nunca vai importar qualquer nome que sair de sua boca, você ainda vai ser um miserá… – Tadeo escuta um corte sendo feito e sua mãe parando de falar. Agora seu pai está gritando, obviamente chorando. Se ele não saísse naquela hora, poderia ser pior para os pais dele. Sabia que aqueles idiotas iriam seguir ele e, afinal de contas, tudo era culpa dele, então cabia a ele resolver.
Ele destrancou. O Barulho de fora tornou imperceptível o som da tranca. Rapidamente, ignorando toda a bagunça que a casa estava, ele pegou um livro antigo que estava bem no fundo, pegou algumas gemas bem coloridas e saiu.
Primeiramente, o que viu era traumatizante: toda sua casa era destruição. Viu sua mãe, viu sangue, viu seu pai e percebeu que ele olhou de volta. Logo os outros dois olharam também, mas foi o tempo de Tadeo sair pela porta dos fundos com tudo que tinha nas mãos e ir direto para a floresta. Guilhermo e Joshua o seguiram, deixando o povo da vila acompanhando a tragédia que tinha acontecido.
Tadeo corria o mais rápido que podia no meio da escuridão da noite, mas aqueles dois eram mais velozes. Ele tentou utilizar a mata da floresta ao seu favor, mas os soldados já tinham treinado perseguições antes. Numa curva, ele ganhou tempo o suficiente para se esconder em um arbusto e despistou eles por uns minutos. Seu coração batia ferozmente e sua respiração estava muito forte, mas ele tinha que continuar correndo. Mesmo hiperventilando, ele continuava a correr. Mesmo com os pés feridos, mesmo cansado, mesmo sem saber o destino ao certo de seus pais, a cada palava que vinha deles, cada barulho que escutava, era um motivo para correr mais rápido.
Até que ele conseguiu chegar no Santuário. Aquele era o lugar mais sagrado o possível para Tadeo, portanto ao chegar perto ele começou a andar com mais calma, tentando controlar a respiração. O santuário era um dos lugares mais escuros da Floresta e Tadeo conseguia reconhecer pelos relevos que tinham no chão. Era um grande círculo com diversas runas desenhadas. Dentro do círculo haviam três árvores grandes e mais três brotos que ele e sua mãe haviam plantado. Apesar de ser no meio da floresta, raramente animais ultrapassavam aquela faixa na terra. Assim que chegou, Tadeo fez uma referência e enterrou as gemas que segurava no chão de dentro do Círculo e foi direto para a árvore do meio.
Cada árvore possuía seu próprio conjunto de runas ao seu redor e, de acordo com a mãe de Tadeo, serviam para coisas diferentes. Se era uma clemência ou um pedido, a árvore da direito o traria de volta ao equilíbrio. Se tivesse perdido algo ou alguém, ou estivesse sofrendo de alguma forma, a árvore da direita o traria de volta. A árvore do meio nunca era utilizada porque era justamente uma conexão direta com o Espirito da Floresta. No entanto, o desespero no pequeno coração de Tadeo o fez recorrer àquela árvore. E, depois de rezar, falou o seguinte.
– Ó, Grande Rainha. Entendo que sua força foi há muito, desgastada. Entendo que já nos ajuda e abençoa nossas vidas há séculos e eu a agradeço com tudo que tenho. No entanto, minha grande Senhora, o mal a espreita. Nós não conseguimos conter mais o seu segredo aqui conosco. O seu poder que outrora nos protegia, parece que agora não é o suficiente e estamos todos com a corda no pescoço. Homens forasteiros chegaram à nossa terra e a declaram com as dele, declaram nossas vidas como as dele, mas eles estão engados, minha Senhora. A sua Escuridão é o que nos guia, o seu poder e a sua vontade é o que nos torna fortes e perseverantes. Eu sou um nada perto de sua grandiosidade, mas ainda sim acredito em sua misericórdia para poder me ajudar. Por favor, me ajude.
Pela próxima hora, Tadeo não ouve nada. No entando, ele continua repetindo por clemência o “Por favor” enquanto estava ajoelhado no chão chorando. E ele fica no mesmo lugar, da mesma forma.
Quando a madrugada chega, Tadeo já estava dormindo ajoelhado, ele ouve em seus sonhos uma voz lhe dizendo “Tu és mui audacioso, pequeno. Podes me chamar de Rainha das Trevas ou Rainha do Ar. Grande Senhora da Escuridão. Sou aquela que foi esquecida, mas que nunca ficam longe de mim. Sou aquela que trouxe a liberdade para ser quem quisesse ser o que quisesse ser. Sou aquela que esconde em suas trevas as atitudes e sentimentos que nem a luz da lua e nem mesmo a luz do sol ousam tocar. Eu sou poderosa e influente. Sou esguia e não possuo forma: sou aquilo que eu toco e com aquilo me transformo. Nada pode conter minha grandeza e, quanto mais tentam fugir e se esconder de mim, mais fácil será de achá-los.
[…]
Eu estive de olho em você, meu garoto, desde que nasceu. A sua familia tem tomado a minha atenção desde a formação dessa pequena vila, afinal foi seu antepassado que me colocou aqui, sacrificando sua própria vida e seu sangue nessa área para chamar um pouco da minha atenção para essa pequena vila. Eu sinceramente não me importava muito com ela – Seryne seu nome -, mas atitudes rebeldes contra elfos religiosos merecem meu reconhecimento. Você, no entanto, é muito diferente dela. Um reles humano, sua vida passa diante dos teus olhos sem sequer você possa fazer algo para me impressionar. Diga-me o que você tem até de coragem para me chamar? Que tipo de força você tem? Do que você é capaz para poder abraçar as sombras?”
Tadeo acordou sobressaltado. Olhou para ao redor, mas não conseguia ver nada. Nada exceto… O que é isto? O livro que trouxe estava brilhando. Ele abriu o livro, mas não havia nada ali. Apenas páginas em branco. Ele olhou para a capa e continuava sendo o mesmo livro estranho. Sem nenhuma forma ou formato, apenas uma cor cinza outras pedras cinza que fazia aquilo ser um grande livro sem graça.
Não havia tempo para entender aquilo, então voltou com apenas algum tipo de profecia dentro de seus sonhos para a Vila. Chegando perto, avistou que Zé e Guigo ainda estavam lá. Eles estavam em outra casa, atormentando outra família. Era a gota d’água. Tadeo correu até a casa da dona Ingrid, que era uma das caçadoras da vila, pegou sua besta e alguns virotes. Pegou também uma clava grande, se aproveitando que ela estava na rua assistindo a inquisição daqueles imbecis acontecer.
Chegando perto, ele tenta acertar um tiro de virote em Zé, mas erra. Felizmente, eles não percebem porque o tipo não errou tão feio. Novamente ele tenta atirar em Zé e acerta. O virote atravessa seu braço e Zé só fica em choque de tanta dor. Guigo olha ao redor, procurando o insolente que resolveu lançar esse Virote, mas na bagunça das pessoas chocadas, ele não consegue ver. E então Tadeo dá seu segundo tiro em Zé. Esse muito mais preciso que o primeiro, atravessa sua garganta. Sangue começa a jorrar para todos os lados. Os pais mandam seus filhos irem pra casa e as pessias começam a se assustar com a cena, enquanto Tadeo com todos seus quinze anos sobre em um telhado e grita
– Fomos passivos por muito tempo. Eles nos humilharam e fizeram com que acreditássemos que éramos indefesos. Eles mentiram para nós! Somos fortes! Somos inteligentes! E, sem nós, eles são apenas otários com títulos que servem para nada no mundo real. Olhem para esse vagabundo. Percebam que vocês são muito mais fortes que ele. E agora percebam o medo naquele olhar. Ele sabe que o que digo é verdade. Nós existimos aqui por muito tempo e não foi por causa deles. Vocês sabem, todos vocês sabem: A noite não foi feita para se acovardar! A Escuridão que nos guia e esta é a hora perfeita! Vamos mostrá-los do que somos capazes! E vamos mostrar Às Trevas que nós não temos medo. Pelo contrário, nós a adoramos!
Primeiramente as pessoas não sabiam o que pensar sobre aquilo. Matar as outras? Elas nunca fizeram aquilo e aquele discurso parecia mais algo que um lunático diria. Mas, no momento em que ele começa a falar sobre a escuridão, o livro que estava debaixo de seu braço começa a se transformar enquanto emana algum tipo de aura, tão escura que nem mesmo a luz de dentro das casas conseguem ver e tão intensa e poderosa que, mesmo sem conseguir ver direito, eles sentiam a presença. E definitivamente entenderam que aquilo não era mais uma mensagem de Tadeo, mas da própria Senhora da Escuridão. Era aquela noite e a hora era aquela.
Rapidamente eles subjulgaram Guigo, que tentou fugir desesperadamente, mas não iria conseguir com tantas pessoas ao redor dele. Enquanto que o povo fazia o que quisesse com ele, Tadeo se reunia com dois antigos líderes para organizar um ataque contra o grande acampamento dos Cavaleiros.
Eles foram espertos e não subestimaram o inimigo. Não tinham tempo a perder. Pegaram a armadura dos dois Cavaleiros e suas armas, assim como as armas de caça de cada um e seguiram na espreita em grupos de cinco. Apesar de se movimentaram em grupo, eles dividiram as tarefas em fases: Interceptar os sentinelas noturnos, recolher o equimamento deles (de mantimentos a armas e armaduras), encontrar onde eles estavam dormindo e onde estava o comandante, tirar as armaduras pessoais de perto deles e, se possível, atacar enquanto ainda dormem. O final foi um completo sucesso. Eles estavam mal acostumados com mordomia e não perceberam pessoas vindo, não ouviram seu equipamento ser roubado e não conseguiram lutar sem o equipamento. A maioria foi apenas rendida. Aqueles que resistiam à rendição eram duramente repreendidos ou simplesmente mortos. A batalha acabou antes que o sol chegasse a pino. Quando acabaram, esperaram dar meio dia para todos se reunirem e rezarem para A Grande Escuridão, agradecendo-a pela vitória e desculparam-se pela negligência.
Assim, levaram de volta para a vila todos os soldados e equipamentos, que foram divididos entre as pessoas de lá. Agora que a noite havia se passado e o sol queimava nos céus, Tadeo se sentia um pouco fraco pelo dia anterior e desmaiou assim que chegou na cidade.
“Apesar de jovem, tu tens força, humano. Eu lhe abençoei toda esta noite na esperança de que tu pudestes fazê-los crentes. Não em mim, mas neles mesmos. Toda essa história de subjugação não teria existido se eu tivesse sido envolvida por vocês desde o começo e a omissão, ou melhor, a negligência foi o preço que todos você pagaram.
Mas humano, como eu estava dizendo, eu o ajudei a fazer com que sua pequena vila conseguisse entender a sua autossuficiência e pudessem compreender a força para mantê-la. Vocês são bons de coração, mas isso não é suficiente para se manter estável eternamente no mundo. Agora que resolvemos a sua grande questão, vamos resolver a minha.” O sonho muda. Antes era o simples preto enquanto que a voz ecoava na cabeça de Tadeo. Agora Tadeo se encontrava em um tipo de ponte que conectava o nada a lugar algum. Acima de sua cabeça havia apenas as cores se transformando e brilhando de volta para ele. O chão era transparente e embaixo de seus pés possuía o vazio eterno. “É, no entanto, sua escolha.”. Num piscar de olhos, algo aparece em sua frente. Algum tipo de fumaça sobe de baixo, do nada, se separando pela ponte. Ao se juntar novamente, o espaço entre as duas torrentes de fumaça brilhou em um tom azulado. “Eu te disse, você sabe. Eu possuo grandes interesses e nunca sou saciada. Saberes… Magias… Conhecimentos atuais… Bem, eu fui esquecida, esta é a verdade. Entretanto a vida é contínua” E, da fumaça, uma figura feminina começa a se formar, mas nunca consegue completamente se tornar reconhecível. “E eu simplesmente não sou segurada pela morte. Entenda. Isto aqui é um portal. Ao atravessá-lo, você aceitará meu acordo e terá a minha… Bênção. Por toda sua vida. No entanto existem certos termos para esse acordo:
Primeiro, terá que seguir às minhas regras e andar sempre comigo. Terá que resignar sua vida mundana e sair mundo afora em busca de magia e poder.
Segundo: Seus pensamentos são completamente meus. Não terá momentos sozinhos apenas com seus pensamentos e eu sempre saberei o que planejas, suas questões mais íntimas e, ao meu bel prazer, posso… estruturá-las. Moldá-las, mas apenas quando necessário.
Terceiro: a minha benção é perigosa, pois muitos são esquecidos do meu poder, mas os elfos sapientes da Corte do Crepúsculo serão plenamente contra você e tentarão que impedir minha presença no mundo. Poucos são os que lembram sobre a minha Corte neste mundo atualmente, mas ainda sim é bom ser cauteloso.
Por último: Seus objetivos são meus objetivos e qualquer missão importante para você será ouvida, mas não serei leniente caso perceba você desviando do caminho que trilharei para você.”
O chão em que Tadeo estava de pé se petrificou a partir dos

pés dele, expandindopara toda a ponte. Ao tocar na fumaça com um formato de mulher, ela se solidificou e uma escultura pitoresca que parecia ser algum tipo de monstro se moldou em sua frente. Quando a petrificação chegou no portal, ele se tornou sólido e a luz que produzia dentro dele antes era fraca, agora brilhava um azul forte. O céu que brilhava em diversas cores agora se tornava opaco, como se uma nuvem de chuva bem densa cobrisse o maior arco-íris do mundo. A petrificação continuou para o infinito enquanto que, embasbacado, o Tadeo procurava em sua cabeça pensar sobre aquilo que estava sendo oferecido, com certa dúvida.
“Eu admito que é muito peso para lidar, no entanto o seu vilarejo é apenas o começo. Eu prometo a seu nome riquezas, glória, honra! Prometo a ti toda proteção e maravilhas que imaginar, mas apenas se souber como se desventurar no mundo. Você poderá ser um herói.”
– Eu serei como… como seu herói?
“Será como um mensageiro do mundo da minha presença. Um representante do meu poder e da minha vontade no mundo.”
– Então é claro que eu aceito! Desculpe-me pela animação, senhora, mas ser seu ajudante é a melhor coisa que pode me acontecer na vida! E eu juro à Senhora que farei o que for possível para te satisfazer. Sei que sou nada além de um pequeno humano perto de sua grandiosidade, mas prometo que farei tudo que quisestes.
Ao falar isso, Tadeo se convence automaticamente da sua adoração, entende o sentimento e o abraça mais forte o possível. Ele começa a andar. Não andar, correr, para o portal, desejando
“Então atravesse o portal, mortal. Mas lhe aviso que ser temente a mim pode ser desafiador e intenso demais para você.”
– Por você, milady, eu lutaria contra todo o mundo!
“Veremos, humano.”
E ele entrou no portal.
Acordou e estava se sentindo estranho. Meio sonolento e sentindo cheiro de pétalas no ar, levantou-se da cama e percebeu que não sabia onde ele estava.
Era uma cama, mas muito mais luxuosa do que ele jamais dormiu. A cama era gigantesca, com diversos travesseiros e tecidos diferentes com texturas diferentes. Ela tinha hastes que seguravam persianas para manter o lado de dentro escuro. A cama era feita de mogno, e assim na cabeceira como em suas hastes e pernas haviam desenhos esculpidos, mas Tadeo não conseguia entender o que seria aquilo. Percebeu que havia uma corda com franja que ligava até o teto abobodado da cama. Temendo o que iria acontecer, ele puxou. Ao fazer isso, as persianas se abriram e, diferente do que imaginava, ele ficou ainda mais chocado.
O quarto em que estava era um absurdo de tão impecável. Todos os móveis que estavam ali eram me madeira, porem encerados e todos também tinham sido esculpidos. Na frente da cama havia um banco e, na parede contrária, um sofá com uma mesa de centro na frente. Logo aos lados da cama haviam pequenas mesas com candelabros e velas fixadas, assim como nas paredes do quarto. O que não faltava no quarto, além de mesas e cadeiras, esculturas e retratos pintados, eram portas e janelas. O quarto formava um hexagono, com dois lados longos, dois lados pequenos e dois lados médios. Um dos lados longos é onde estava localizada a cama. Na extrema ponta do lado esquerdo haviam grandes portas. Na extrema ponta do lado esquerdo haviam duas portas menores. Todo o resto das paredes do quarto foram preenchidas com janelas, quadros ou tapeçarias. O chão, que era de madeira bem encerada, estava quase todo coberto por tapetes e peles de animais grandes. E, apesar da intensa quantidade de informação e objetos que haviam no quarto, ele ainda sim trazia a sensação de conforto, segurança e aconchego, como um lugar que qualquer vagabundo ou desafortunado sonha por toda sua vida.
Bem distante da cama na direção direita, mas na mesma parede havia outra porta, obstruída por um homem. Ele estava usando armadura e mal tinha percebido Tadeo acordar, mas quando percebeu, pediu a Tadeo um momento e entrou naquela porta.
O mundo girava na cabeça de Tadeo, tentando entender o que se passava. Saiu da cama e sentiu uma sensação estranha, como tivesse se esquecendo de algo. Deu uns passos para longe da cama e sentiu uma leve dor de cabeça, mas pensou que não fosse nada. Quando alcançou a porta, a dor de cabeça se tornou um pouco mais forte, e agora ele ouvia uma voz falando baixo em sua cabeça: “Não esqueça do livro”.
Mas que livro? Voltou para a cama e percebeu que, em cima de uma das mesinhas de cama, havia um tomo. A parte de fora do tomo era preta e, pela aspereza e frieza, era feita de uma pedra polida fina, bastante negra. Sua capa possuía diversas pedras encrustadas, todas negras, desenhando um rosto, com olhos bastante penetrantes. Tadeo abriu o Tomo e percebeu que havia metal fundido na pedra e que, por sua vez, as páginas foram fixadas naquele metal. Eram muitas paginas, e todas elas eram pretas e pareciam desgastadas, dando a sensação de que as páginas haviam sido queimadas. No entando, aos olhos de Tadeo, aquele Tomo era muito mais do que paginas queimadas: ele conseguia enxergar desenhos, regras, leis. Ele conseguia ler cada palavra escrita, como se a própria escuridão das folhas falasse com ele e o ensinasse justamente o que ele queria aprender.
Fechou o livro, o prendeu em suas roupas e seguiu caminho para a porta.
Saindo do quarto, ele percebeu o que já tinha deduzido: estava num castelo. E em um bastante movimentado. Ele via homens e mulheres andando de um lado para o outro, subindo e descendo lances e mais lances de escada. Todos eles impecavelmente vestidos, com calças brancas, sapatos pretos, camisas azuis e chapéus azuis com um tecido branco caindo sobre ele. E, estranhamente, todos eles estavam vestidos iguais. Tadeo teve que dar espaço para uma mulher, que parecia apressada pelo corredor enquanto repetia uma lista de afazeres.
Pensando em como aquele castelo poderia ser gigante, ele voltou para seu quarto, esperando o guarda enquanto se afeiçoava mais ao livro.
Mais tarde, Tadeo iria saber que um grande nobre, relacionado ao próprio ducado, havia estudado as grandes cortes élficas e, ao saber o que havia acontecido com aqueles soldados, mandou imediatamente uma carta de solicitação dos pais de Tadeo juntamente com ele para que se apresentassem no Castelo das Cem Vozes. Tadeo permaneceu desmaiado por semanas e a única coisa que murmurava era sobre o livro, por isso deixaram-no com o livro no quarto.
Pelo que ele soube posteriormente, sua mãe havia ficado viva, mas não conseguia mais utilizar seu braço esquerdo, devido a machadada em sua clavícula. Seu pai, portanto, tomou as rédeas de toda a situação em casa. A vila voltou aos trilhos e, graças às estórias contadas para os sete cantos do mundo, aquela vila começou a ganhar notoriedade e crescer.
Quanto a Tadeo, ele realmente nunca foi o mesmo. O Nobre, de nome Grorganir Harfoosen, da casa dos Noerbus, o abrigou e lhe concedeu a chance de ser seu cavaleiro real, com a promessa de que depois que estudasse sobre Magia, Política e Arte, seria liberado para sair em suas companhias.
Passaram os anos e Tadeo nunca decepcionaran o Lorde Harfoosen. Sempre um prodígio, sempre esforçado e sempre com aquele Tomo ao seu lado. Dava um pouco de medo às vezes, olhar para aquele Tomo e passou a ser uma dos motivos das pessoas respeitarem o garoto aonde ele ia.
Aos seus vinte e cinco anos, Tadeo não tinha amores que não fossem a arte. Não tinha interesses que não envolvessem magia ou monstros ou a própria história do mundo. Quando as pessoas o viam passar, elas sentiam uma aura de poder e comando, e Tadeo amava sentir aquelas pessoas representarem medo ou admiração em seus rostos enquanto passava, ainda mais os nobres. Podia ter envelhecido e aprendido o possivel, mas dentro dele, bem dentro, sempre iria existir uma chama de ódio a qualquer título nobre que pudesse existir. Sua aparência estava muito diferente quando menor: estava muito menos magro, mas ainda preservava sua estrutura mais fraca. Seu rosto meio arredondado agora acompanhava pequenos óculos, segurados por uma corda. Seu cabelo, que agora batia em seus ombros, continuavam pretos como a noite, mas agora eram sedosos. Seus olhos cor de mel sempre estavam em fogo, como se estivesse preparado para uma batalha a qualquer momento.
Depois de um ano, se aprontando e procurando investimentos e treinando escudeiros, ele finalmente saiu do castelo e sai em busca da cidade, para conhecer outros nobres e desvendar novas aventuras.